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  • Laminite em cavalos: como evitar pelo manejo da pastagem

    A laminite (conhecida popularmente como “aguamento”) é uma das emergências médicas mais dolorosas na clínica de equinos. Trata-se de uma inflamação das lâminas sensíveis do casco, responsável por unir a falange distal (osso do pé) à parede córnea. Em casos graves, a perda desse suporte pode causar rotação ou afundamento do osso dentro do casco e levar à eutanásia do animal.

    Embora historicamente associada ao excesso de grãos na dieta, a causa mais frequente em animais mantidos a pasto é o consumo descontrolado de carboidratos não estruturais (CNE) presentes na própria forragem. Entender como esses açúcares se acumulam nas plantas e ajustar o manejo do rebanho é a chave para a prevenção.

    Emergência: cavalo com dificuldade para andar, apoiando-se para trás, com os cascos quentes e pulso forte nos membros precisa de atendimento veterinário imediato. Não espere melhorar sozinho.

    1. Como o excesso de açúcar do capim causa laminite

    As gramíneas produzem glicose pela fotossíntese e a armazenam como açúcares simples (como frutose e sacarose) e polímeros chamados frutanos. Juntos, esses compostos formam a fração dos CNE.

    O sistema digestivo do cavalo digere amido e açúcares simples no intestino delgado. Quando o animal consome muita forragem rica em CNE em pouco tempo, ocorre uma sequência de eventos:

    1. Sobrecarga do intestino delgado: a digestão enzimática é ultrapassada e o excesso de carboidratos segue para o intestino grosso (ceco e cólon).
    2. Fermentação desequilibrada: bactérias fermentadoras de amido e frutano proliferam e produzem muito ácido lático.
    3. Queda do pH intestinal: o ambiente fica ácido, bactérias nativas morrem e liberam toxinas na circulação.
    4. Inflamação das lâminas: as toxinas absorvidas alteram a circulação e ativam processos inflamatórios que destroem a ligação entre o osso e a parede do casco.

    Atenção: cavalos com síndrome metabólica equina (SME) ou disfunção da pars intermedia da hipófise (PPID/Cushing) têm resistência à insulina e são muito mais suscetíveis à laminite induzida por pastejo. Para esses animais, o controle precisa ser ainda mais rigoroso, com acompanhamento veterinário.

    2. O que aumenta o açúcar na pastagem

    A concentração de CNE no capim varia ao longo do dia e conforme o clima. O açúcar se acumula quando a planta produz mais do que gasta para crescer e respirar:

    CondiçãoCNE no capimPor quê
    Dias ensolarados com noites frias (abaixo de 10 °C)Extremamente altoO sol produz muito açúcar de dia, mas o frio da noite impede a planta de crescer e gastar a reserva.
    Tardes ensolaradas de primavera e outonoAltoAcúmulo da fotossíntese feita durante a manhã e o início da tarde.
    Pasto estressado por seca ou solo pobreAltoA planta para de crescer, mas continua guardando frutanos na base do colmo.
    Madrugada e início da manhãBaixoA planta consome as reservas de açúcar durante a noite.
    Dias nublados ou chuvososBaixo a moderadoA baixa radiação solar reduz a fotossíntese.

    3. Estratégias práticas de manejo

    A. Horário de pastejo

    Prefira soltar os cavalos no pasto do fim da noite ao início da manhã, quando o capim tem menos açúcar solúvel. Evite o fim da tarde, principalmente em dias ensolarados de primavera, para animais sensíveis.

    B. Altura do capim e pastejo raso

    Os maiores teores de frutano ficam guardados na base da planta. Evite o superpastejo: retire os animais do piquete quando o capim chegar a cerca de 8 a 10 cm, para que não consumam a parte mais rica em açúcar.

    C. Focinheira de pastejo

    A focinheira de pastejo reduz bastante o consumo de capim, permitindo que o cavalo continue se exercitando e socializando no piquete sem ingerir grandes volumes de forragem verde. O ajuste precisa ser correto, e o animal deve poder beber água livremente.

    Dica de transição: ao colocar cavalos em pastagem nova na primavera, faça a introdução de forma gradual, começando com cerca de 30 minutos por dia e aumentando 15 minutos a cada dois dias, para a flora intestinal se adaptar.

    D. Feno antes de soltar

    Ofereça feno de gramínea com baixo teor de carboidratos solúveis antes de soltar os animais. Um cavalo saciado come com menos pressa e voracidade o capim fresco.

    Conclusão

    O pasto é essencial para a saúde mental e o bem-estar dos cavalos, pois garante exercício e comportamento natural. O objetivo do manejo não é eliminar o acesso ao pasto, e sim controlar o horário, a altura do capim e as necessidades metabólicas de cada animal. Com essas estratégias e acompanhamento veterinário regular, é possível prevenir a laminite e dar mais longevidade aos cavalos da propriedade.