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  • Controle da verminose em ovinos: como usar o método FAMACHA

    A verminose é o principal problema sanitário e econômico da criação de ovinos. Em regiões tropicais e subtropicais, o grande vilão dos rebanhos é o nematódeo Haemonchus contortus, um parasita que vive no abomaso (o quarto estômago) e se alimenta de sangue. A combinação do poder desse verme com o uso excessivo e incorreto de vermífugos nas últimas décadas criou um cenário crítico: a resistência dos parasitas a vários princípios ativos.

    Nesse cenário, vermifugar todo o lote em datas fixas deixou de ser uma boa estratégia. O método FAMACHA© é uma ferramenta de avaliação visual que ajuda a decidir quais animais realmente precisam de tratamento, sendo um pilar do manejo integrado de parasitas.

    Importante: a escolha do vermífugo, a dose e a frequência devem ser definidas com um médico-veterinário ou zootecnista que conheça o seu rebanho. Este texto é informativo e não substitui o acompanhamento profissional.

    1. O que o Haemonchus contortus causa no rebanho

    Cada verme adulto no abomaso consome cerca de 0,05 mL de sangue por dia. Em infestações grandes, com milhares de vermes, a perda diária de sangue pode ser grande. O resultado é uma anemia intensa e a redução das proteínas do sangue. Os sinais mais comuns são:

    • Palidez das mucosas (olho, vulva e boca);
    • Apatia e prostração: o animal pasta menos e fica fraco;
    • Edema submandibular (“papo inchado”): acúmulo de líquido embaixo da mandíbula;
    • Perda de condição corporal e crescimento lento dos cordeiros;
    • Morte súbita: principalmente em animais jovens ou em matrizes no fim da gestação e no pico da lactação.

    2. O conceito de refúgio

    O método foi desenvolvido na África do Sul por pesquisadores (Malan, Bath e van Wyk) e se baseia na ideia de refúgio.

    O que é refúgio? É a parte da população de parasitas que não é exposta ao vermífugo. Inclui as larvas infectantes (L3) no pasto, as larvas em pausa dentro do hospedeiro e os vermes adultos nos animais que não foram vermifugados.

    Se vermifugamos 100% do rebanho, os únicos vermes que sobrevivem e se reproduzem são os resistentes. Em poucas gerações, toda a população de vermes da fazenda fica resistente. Ao tratar apenas os animais que não suportam a carga de vermes, preservamos vermes sensíveis no ambiente. Eles cruzam com os resistentes, diluem os genes de resistência e prolongam a vida útil dos vermífugos.

    3. A escala FAMACHA© e a decisão de tratar

    O avaliador compara a cor da mucosa do olho do ovino com um cartão ilustrado, que tem cinco categorias de cor:

    GrauCor da mucosaHematócrito (VG) aproximadoAção indicada
    1Vermelho vivoNormal (acima de 27%)Não tratar.
    2Vermelho-rosado23% a 27%Não tratar. Monitorar periodicamente.
    3Rosa (limítrofe)18% a 22%Avaliar. Tratar apenas se houver fatores de risco (lactantes, animais idosos ou magros).
    4Rosa-pálido13% a 17%Tratar.
    5Branco12% ou menosTratar com urgência e dar suporte ao animal, sob orientação veterinária.

    4. Como avaliar o animal no campo

    Erros na técnica levam a diagnósticos incorretos. Siga estes passos:

    1. Contenção adequada: o animal deve estar em pé, em local bem iluminado com luz natural (evite sol direto no olho e sombra muito escura). Não avalie animais sob estresse térmico forte, pois a vasodilatação pode esconder a palidez.
    2. Posição dos dedos: coloque o polegar de uma mão sobre a pálpebra superior e o da outra mão sobre a pálpebra inferior.
    3. Exposição da mucosa: pressione suavemente o globo ocular com o polegar de cima e, ao mesmo tempo, puxe a pálpebra inferior para baixo, para que a mucosa interna fique visível.
    4. Comparação rápida: aproxime o cartão oficial da mucosa exposta e decida em poucos segundos, pois a exposição prolongada ao ar deixa a mucosa mais vermelha e altera o resultado. Avalie os dois olhos.

    Atenção: conjuntivite, poeira, corpo estranho ou infecções podem alterar a cor da mucosa, mesmo sem a presença de H. contortus. Sempre observe o animal e o rebanho como um todo.

    5. Outras ferramentas de manejo sanitário

    O FAMACHA© não deve ser usado sozinho. Combine com:

    A. Exame de fezes (OPG) e teste de eficácia

    O FAMACHA© avalia a anemia (o efeito no animal), enquanto o OPG (ovos por grama de fezes) mostra a contaminação do ambiente. Faça exames de fezes por amostragem e, uma vez por ano, o teste de redução da contagem de ovos nas fezes para saber se o vermífugo usado na propriedade ainda é eficaz (acima de 95% de redução).

    B. Manejo das pastagens

    A maior parte dos parasitas está no pasto, na forma de ovos e larvas, e só uma pequena parte dentro dos animais. As larvas infectantes ficam concentradas nos primeiros centímetros do capim, então evite o superpastejo e respeite a altura de entrada e saída dos piquetes. Animais adultos mais resistentes podem pastar primeiro nos piquetes contaminados, antes da entrada de cordeiros recém-desmamados.

    C. Nutrição

    A resposta do organismo contra os vermes exige proteína. Ovinos bem alimentados resistem melhor e mantêm a produção mesmo infectados. A suplementação antes e depois do parto ajuda a reduzir a queda de imunidade das fêmeas nesse período, quando elas eliminam mais ovos no ambiente.

    Conclusão

    O método FAMACHA© ajuda a tratar só quem precisa, a preservar a eficácia dos vermífugos e a reduzir gastos. Combinado com exame de fezes, manejo do pasto e boa nutrição, ele leva a criação de ovinos a um controle mais técnico e mais barato a longo prazo.